Lívia todo mundo sabe o que você vai fazer no banheiro!

Lívia todo mundo sabe o que você vai fazer no banheiro!

Muita dificuldade tem muitos de sair de casa e não levarem a si mesmos. Não sabemos o porquê disto, mas dá para fazer algumas especulações. Principalmente porque é muito fácil fugir de si mesmo, quando estamos sozinhos é só abrir um livro. Não tem o homem muita dificuldade em livrar-se desta noite escura que o preenche. A noite escura, os deslocamentos do eu e os sonhos dos outros podem ser discutidos com uma outra visão.

Em seu blog o poeta Pedro Mexia partilha uma música, ela se chama “B is for Brutus” de uma banda sueca chamada The Hives que em certo trecho diz: «Judas Brutus Quisling time has come to do / What’s expected of you» “Judas Brutus traidor chegou a hora de fazer / O que se espera de você”. E sobre o trecho diz o poeta “E chega o momento em que todas as pessoas fazem aquilo que esperávamos delas, pelo menos desde que aprendemos a esperar o pior das pessoas”. Sempre acabamos por fazer aquilo que esperavam de nós? Depois de todos os nossos desvios, acabamos por fazer o que esperavam de nós? Será o humano uma frágil bonequinha nas mãos do cosmo? Mas como esperavam os que esperavam algo de nós? Não somos nós caixas fechadas? Não somos potes que só se podem abrir consoante a vontade deliberada do conteúdo, que somos nós? Então como fazemos o que esperavam de nós? Fui investigar.

O filósofo escocês David Hume contou uma piada sobre a estética, acho interessante reproduzi-la: o rei desconfiado da estética resolve colocar a prova especialistas. Então ele pega um tonel de vinho e oferece à dois enólogos. O primeiro degusta o vinho e diz “o vinho é bom, mas tem um leve gosto a couro”! O rei não gostou da resposta do especialista. O segundo diz após degustar o vinho “o vinho é muito bom, mas tem um leve gosto de metal”! Outra vez o rei não leva a resposta a sério. Quando os dois terminam de beber, no fundo do barriu tinha um chaveiro de couro com uma chave! Piada de filósofo. A piada é pertinente porque nos lembra que apesar de sermos diferentes temos mais ou menos os mesmos instrumentos, por isso não discordamos tanto uns dos outros quanto era de suposto pela nossa extrema diferença. Também que passamos a vida com o mesmo corpo, que se desenvolve com o tempo [junto com outros corpos] e depois começa a morrer, mas permanece o mesmo. Existe um mito muito liberal de que na nossa intimidade, nós conosco mesmo poderíamos ser sinceros, mas isso não é possível, todos tem na cabeça coisas que não revelamos nem a nós mesmos. A hipocrisia que permite a permanência da sociedade acaba sendo interiorizada por nós, nós não dizemos tudo, mesmo na “sinceridade do coração”. O que não quer dizer que sejamos incompreensíveis, não é pela falta destas informações que deixamos de nos conhecer. O modo de andar já revela o que esperávamos de alguém, tem que ser muito superficial para não jugar as pessoas pela aparência. Todos fazem o que esperavam de nós, não é preciso ser onipresente para saber que Caim mataria Abel, está na cara! Se nós pudêssemos sair do nosso corpo e usar algo mais que nossos instrumentos aí sim eu ficaria surpreso. Lívia se na análise ao invés de falar você cantasse, e cantasse tão bem quanto a Camille aí sim eu ficaria surpreso no âmbito do sujeito-que-não-pára-de-falar. Todos sabem o que você faz no banheiro, o que haveria de se fazer no banheiro para além dos instrumentos dele? Sabemos que um banheiro em geral tem um vaso sanitário, uma pia, um Bidé (!), um chuveiro ou uma banheira. Caso o sujeito se angustie por não poder ir além dos instrumentos que dispõe o banheiro também tem uma janela… da qual ele pode usar para acabar com a angustia do sujeito.

Para o esboço de uma critica ao sonho do Thiago gostaria de trazei à baila o conto O Espelho de Machado de Assis. Com este conto eu posso explicar minha obsessão pela roupa. No conto é exposta uma teoria da alma humana. O personagem principal depois de ser deixado sozinho na fazenda, após se sentir vazio – uma noite escura substancial. Descobriu que poderia se ver completo novamente se colocasse a sua farda. Bom vou analisar o sonho do Thiago, mas eu não quero descobrir uma verdade sobre ele, quero só botar mais uma visão na imensidão de possibilidades que caracteriza a cabela do Thiago. O Thiago sonhou que estava em uma casa desconhecida (talvez fosse a da namorada) apenas com a roupa do corpo. Ele foi para o banheiro e a empregada pegou a roupa dele e esfregou nas suas partes intimas. Notando que a roupa estava com o cheiro da empregada ele não a vestiu, pois a namorada iria matá-lo. Primeiro ponto, que empregada é esta? Empregada da casa? De que casa? Sendo que o narrador nem mesmo sabe onde está, bom aqui eu recomendo que ele não passe mais as noites lendo Kafka, pois acaba dando nisso mesmo, aliás não posso deixar de assinalar o potencial kafkiano da empregada. Que grande grelo! Em? Deixar a roupa toda com o cheiro! Aliás que cheiro? Como ele conhece o cheiro da empregada? Voltamos ao conto do Machado. Ele acabara de ser nomeado como alferes da Guarda Nacional. Depois de ter ganho de muitos concorrentes, alguns deles sus amigos. Mas aparentemente estes não ficaram magoados, pois foram eles mesmos que deram a farda para o recém alferes que não a podia comprar. Não é estranho tal ato? Terão os amigos dele feito algo com aquela farda antes de a entregar, tipo esfregar nas partes intimas? Levando a sério esta hipótese, a farda dá identidade ao alferes-no-meio-do-mato, mas é uma farda com cheiro de saco? Vamos olhar novamente para esta cena, é possível haver alguma identidade sem passar pela zona intima de alguém? No caso o alguém é o amigo, ou seja, na realidade a identidade do alferes esta foi criada em uma intimidade compartilhada, e nesse compartilhamento é normal que se divida odores, afinal o odor é um dos elementos do que podemos chamar de “fechado”. O Thiago parece estar com medo de que os odores vindos desta existência compartilhada façam ele não ser mais aceito pela namorada?

Afinal viemos ao mundo pelados, sem dentes e sem cabelo. Não me admira que todos saibam o que faremos quando fizermos o que esperavam de nós. Não podemos sair de casa e nos deixar lá, temos que ir junto e com os odores todos.

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