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Por que não devemos desistir do Brasil?

Um blog para ser lido

Faltando alguns minutos para ser executado, um velho escutou do seu carrasco: ‘’Deseja dizer alguma coisa antes de morrer?’’. O velho parou para pensar e respondeu: ‘’Quero que chovam rosas, tulipas e margaridas! Milhões delas!’’. Foi o suficiente para, passado o espanto, o carrasco gargalhar. ‘’E o que mais você quer? Que as estrelas desçam ao mundo? Que sua mãe saia do túmulo para te consolar? Que seu pescoço não quebre e que você não sinta o gosto da morte quando estiver sufocando?!‘’, zombou. Eis que, com todo o ímpeto, o velho replicou: ‘’Também quero que para cada rosa caída, um homem possa amar em paz! Que haja mais cidades livres que tulipas! E que os dias felizes nas vidas dos homens sejam tão numerosos quanto as pétalas das margaridas!’’. Não sei se um dia o desejo do velho se cumprirá no Brasil. Mas que certamente podemos dar um belo…

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PREC

Uma mulher fez um documentário muito interessante. Pegar personalidades públicas e perguntar-lhes como ela viveram o processo revolucionário (o período entre a revolução dos cravos e a nova constituição, que durou dois anos). Numa entrevista sobre a diretora disse que naquele período ela teve que vir para o Brasil. Nisso ela assistiu um show do Chico Buarque, falou com ele e disse que era portuguesa. Ela perguntou quando ela havia vindo para o Brasil, ela disse que foi recentemente. Então ele rebateu irritado, se você veio para o Brasil agora (durante a revolução) você não é bem vinda!

Ler

Às vezes estranho quem gosta de se ausentar deste grosso cascalho a que chamamos mundo. Eu também a faço. É certo que isso quer dizer criar um outro mundo, muito parecido com esse, porém sobre o qual nós temos domínio. É usar a imaginação – ou uma faculdade parecida, como aquela a que chamamos razão – para sermos nosso próprio hitlerzinho.

Uma entrevista do filósofo americano Richard Rorty e o discurso pós-Nobel do escritor latino-americano Mário de Vargas Llosa me deixaram com esta sensação. Como que o pensamento, ou algo parecido, os livros nos tirassem para um mundo mais leve. Uma dança, porém em que fazermos ambos os papéis. Somos o macho por conduzirmos a nossa razão pelos meandros da narrativa – ler não é uma atividade passiva, é também montar a história, o escritor português Valter Hugo Mãe fala bem sobre isso. Ao mesmo tempo em que somos a fêmea, por estarmos leves para saltar e rodopiar como uma bailarina textual.

Fotos, Rússia e ano novo

“Olá, feliz ano novo. Onde você passou a virada do ano?” Sim, você já fez esta pergunta. Não se preocupe, você não é o único chato do mundo. Em vários países a passagem do ano pode ser um evento interessante e divertido. Porém não no Brasil. Nós estamos a menos três horas de Londres, ou seja, os primeiros a passar de ano o fizeram 15 horas antes de nós. Não podemos comemorar um ano já usado por bilhões de pessoas – não faz sentido nenhum isso. Estou decidido não fazer a passagem de ano para 2017. Ficarei na frenteira de um daqueles estados que não adotam o horário de verão e esperarei até onze e meia para pegar um voo até São Paulo. Chegarei no estado a uma da manhã. Quando me perguntarem onde passei a virada do ano, mando às favas! Porém acho que não será necessário tanta meticulosidade para não passar a virada do ano aqui no Brasil. A Standard & Poor’s anunciou que se a nossa economia seguir no ritmo em que está só poderemos passar de ano três meses depois do Japão! Num país desses do mundo, os governantes organizaram uma queima de fogos numa praça central. Porém, por medidas de segurança o povo não pode participar da festa. Em qual país foi? Rússia! É uma boa a alegoria para a democracia russa. Populismo sem povo, Putin eleito de novo! Ligo a TV e todos estão fazendo seus votos. Creio que algumas emissoras poderiam pedir para não falir neste ano que inicia, mas o papai noel não faz milagre! Quero fazer um voto para este ano que aqui se inicia, que no ano que vem ninguém escreva legendas óbvias nas imagens. Por exemplo, você está em traje de banho, todo molhado e deitado na areia. Se for escrever uma legenda coloque “fim de ano na Dinamarca”. Não escreva apenas “praia” porque nós já percebemos a mensagem. Que em 2016 eu demore mais de uma semana para mudar de sentado da vida! Pedro Possebon, 1 de janeiro de 2016, Santo André

Sem saber como começar um dia, ou melhor, um texto. Sempre recorro ao Machado de Assis, hoje como sempre, não é diferente:

Machado de Assis, nos Bons Dias!:

“Cuidava eu que era o mais precavido dos meus contemporâneos. A razão é que saio sempre de casa com o Credo na boca, e disposição feita de não contrariar as opiniões dos outros. Quem talvez me vencia nisto era o Visconde de Abaeté, de quem se conta que, nos últimos anos, quando alguém lhe dizia que o achava abatido:
— Estou, tenho passado mal, respondia ele.
Mas se, vinte passos adiante, encontrava outra pessoa que se alegrava com vê-lo tão rijo e robusto, concordava também:
— Oh! agora passo perfeitamente.
Não se opunha às opiniões dos outros; e ganhava com isto duas vantagens. A primeira era satisfazer a todos, a segunda era não perder tempo.”

 

 

Álvaro de Campos: Aniversário

Aniversário

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos, / Eu era feliz e ninguém estava morto. / Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos / E a alegria de todos, e a minha, estava certo com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos / Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa alguma, / De ser inteligente para entra a família, / E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. / Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. / Quando vim a olhar para a vida. perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, / O que fui de coração e parentesco. / O que fui de serões de meia-província, / O que fui de amarem-me e eu ser menino. / o que fui – ai, meu deus!, só hoje sei que fui.., / A que distância!… / (Nem o acho…) / O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, / Pondo grelado nas paredes… / O que eu sou hoje (e a casa dos que me amarem trema através das minhas lágrimas), / O que eu sou hoje é terem vendido a casa, / É terem morrido todos, / É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos… / Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! / Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, / Por uma viagem metafísica e carnal, / Com uma dualidade de eu para mim… / Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui… / A mesa posto com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, / O aparador com muitas coisas – doces, frutas e o resto da sombra debaixo do alçado -, / As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa / No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração! / Não penses! Deixe o pensar na cabeça! / Ó meu deus, meu deus, meu deus! / Hoje já não faço anos.  / Duro. / Somam-se-me dias. / Serei velho quando o for. / Mais nada. / Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…