Reler um texto

Reler um texto é como rever um jogo do nosso time. Sempre gritamos para tentar conduzir o autor para um resultado melhor, porém ele não vai. Um livro sempre nos dá a mesma resposta.

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Leitura

A leitura é uma dança em que cumprimos os dois papéis. Somos o condutor. Mas também somos a parceira, o membro mais leve do par que pode saltar, rodopiar no ar, jogar-se no chão, etc…

Ler

Às vezes estranho quem gosta de se ausentar deste grosso cascalho a que chamamos mundo. Eu também a faço. É certo que isso quer dizer criar um outro mundo, muito parecido com esse, porém sobre o qual nós temos domínio. É usar a imaginação – ou uma faculdade parecida, como aquela a que chamamos razão – para sermos nosso próprio hitlerzinho.

Uma entrevista do filósofo americano Richard Rorty e o discurso pós-Nobel do escritor latino-americano Mário de Vargas Llosa me deixaram com esta sensação. Como que o pensamento, ou algo parecido, os livros nos tirassem para um mundo mais leve. Uma dança, porém em que fazermos ambos os papéis. Somos o macho por conduzirmos a nossa razão pelos meandros da narrativa – ler não é uma atividade passiva, é também montar a história, o escritor português Valter Hugo Mãe fala bem sobre isso. Ao mesmo tempo em que somos a fêmea, por estarmos leves para saltar e rodopiar como uma bailarina textual.

Um Dom Quixote das lajes.

Também sou um arquiteto. Não, não tenho formação para tal. Mas também não é necessário me julgar por exercício ilegal da profissão. Gosto de arquitetar textos. São estes meus grandes projetos.

Sou um arquiteto de textos. Não de prédios. Às vezes não há sentido para erguer mais um prédio. Incentivar a especulação imobiliária? Eu não! Mas sempre acabamos por erguer mais um prédio. Talvez tenhamos a esperança de que vá lá alguém morar. Ou que o prédio seja útil para algo, etc.

Não sei se os arquitetos fazem casas para amigos. A olhar pela cidade vejo alguns maus amigos e outros que me dão vontade de visitá-los logo.

Sem querer deixar os gostos estéricos de lado. Aqui estou para dizer outra coisa. Talvez haja diferenças entre abrir uma empresa e construir um prédio.

Um arquiteto faz como qualquer escritor hoje em dia. Planeia sua obra e monta. O prédio pronto está dependente apenas da gravidade.

Porém uma empresa é algo quixotesco. É um empreendimento que depende de um acordar contínuo com a disposição de subir mais numa vez um arranha céus. Não como um trabalho de Penélope, que desfaz tudo feito no dia. Um Dom Quixote deve ser capaz de fazer num dia o que fez no outro, fazendo sempre algo diferente, não?

Um arquiteto escreve um livro. Estando pronto vai para o mercado, é criticado, comprado, vendido e etc. Se não faz sucesso fica para a crítica roedora dos ratos. Mas em geral um prédio depende apenas da gravidade.

Ter um blog é algo quixotesco. É sair todos os dias para uma empreitada. Com meia dúzia de objetivos inventados.

Fotos, Rússia e ano novo

“Olá, feliz ano novo. Onde você passou a virada do ano?” Sim, você já fez esta pergunta. Não se preocupe, você não é o único chato do mundo. Em vários países a passagem do ano pode ser um evento interessante e divertido. Porém não no Brasil. Nós estamos a menos três horas de Londres, ou seja, os primeiros a passar de ano o fizeram 15 horas antes de nós. Não podemos comemorar um ano já usado por bilhões de pessoas – não faz sentido nenhum isso. Estou decidido não fazer a passagem de ano para 2017. Ficarei na frenteira de um daqueles estados que não adotam o horário de verão e esperarei até onze e meia para pegar um voo até São Paulo. Chegarei no estado a uma da manhã. Quando me perguntarem onde passei a virada do ano, mando às favas! Porém acho que não será necessário tanta meticulosidade para não passar a virada do ano aqui no Brasil. A Standard & Poor’s anunciou que se a nossa economia seguir no ritmo em que está só poderemos passar de ano três meses depois do Japão! Num país desses do mundo, os governantes organizaram uma queima de fogos numa praça central. Porém, por medidas de segurança o povo não pode participar da festa. Em qual país foi? Rússia! É uma boa a alegoria para a democracia russa. Populismo sem povo, Putin eleito de novo! Ligo a TV e todos estão fazendo seus votos. Creio que algumas emissoras poderiam pedir para não falir neste ano que inicia, mas o papai noel não faz milagre! Quero fazer um voto para este ano que aqui se inicia, que no ano que vem ninguém escreva legendas óbvias nas imagens. Por exemplo, você está em traje de banho, todo molhado e deitado na areia. Se for escrever uma legenda coloque “fim de ano na Dinamarca”. Não escreva apenas “praia” porque nós já percebemos a mensagem. Que em 2016 eu demore mais de uma semana para mudar de sentado da vida! Pedro Possebon, 1 de janeiro de 2016, Santo André

Para andarilhos:

Eu não entendo absolutamente nada da poesia do Zeca, mas ele é o melhor cancioneiro que conheço. Gosto muito deste disco, não é meu preferido. Sou um andarilho, com minha sombra. Como diria o Zeca “quem se lembra dos caminhos velhos é porque tem saudades da terra”:

Cantares do Andarilho (LP Cantares do Andarilho, 1968)

Já fiz recados às bruxas
do caselho à portelada
dei-lhes a minha inocência
elas não me deram nada.

Andei à giesta
ao lírio maninho
na Bouça da Fresta
no Casal Velido
erva cidreira
à erva veludo
na Lomba regueira
no Pinhal do Mudo.

Andei ó licranço
andei ao lacrau
no Monte do Manso
na Espera do Mau
vibra à carocha
ao corujão cego
na mata da Tocha
no rio Lagedo.

Fui andarilho das bruxas
moço de S. Cipriano
já fui morto e inda vivo
vendi a alma ao Diabo.

Era donzel e guardei-me
p´ras filhas da feiticeira
parti-me em metade à loira
noutra metade à morena.